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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Um pouco sobre o que realmente interessa numa Escola de Samba

Quando se vai pesquisar sobre as Escolas de Sambas do Carnaval do Rio de Janeiro, suas origens e sua história, a gente descobre que há muita coisa ainda a ser discutida, uma vez que há fatos que envolvem política e interesses diversos que sempre permearam o tema. Um livro que trata do assunto de uma forma bem legal e atraente é "As Escolas de Samba do Rio de Janeiro", do jornalista Sérgio Cabral, que ressalta que a obra é o resultado de mais de 30 anos de trabalho de uma história muito rica e que envolve milhares de personagens. Vou me ater ao que mais sempre me interessou nas Escolas de Samba: os sambas-enredo.

Parece que inicialmente as Escolas desfilavam cantando dois ou três sambas, sem que estes estivem ligados a algum tema ou  enredo. Não havia esta obrigatoriedade até 1946, quando a entidade que regulamentava o Carnaval de então - UGES, União Geral das Escolas de Samba -  proibiu que as Escolas apresentassem sambas com versos improvisados. Foi o primeiro passo rumo a este formato que conhecemos hoje,  de samba-enredo. Porém, uma ou outra escola, vez por outra, apresentava já um samba, com letra única, falando de um tema específico. Considera-se, inclusive, que foi a Unidos da Tijuca quem , em 1933, apresentou o primeiro samba-enredo.

Mas o primeiro samba-enredo gravado em disco foi o lindo "Exaltação a Tiradentes", com o qual o Império Serrano desfilou em 1949. O samba é de autoria de Mano Décio da Viola, Estanislau Silva e Penteado e foi gravado apenas em 1955, sem grande sucesso na época, na voz do grande Roberto Silva. 



Nara Leão gravou em 1966, no seu "Nara Pede Passagem", um belo samba-enredo com o qual o Salgueiro desfilou em 1960. Chama-se "Quilombo dos Palmares", o primeiro enredo de Fernando Pamplona na vermelho e branco da Tijuca. Mas o primeiro grande sucesso de gravação de samba-enredo foi, sem dúvida, "O Mundo Encantado de Monteiro Lobato", da Mangueira de 1967, na voz de de Eliana Pittman. Acredito que este sucesso fez com que, no ano seguinte, saísse o primeiro LP que reunia os sambas-enredo das escolas de samba do Rio, do carnaval de 1968.


Primeiro LP que reuniu os sambas-enredos das Escolas do Rio em 1968.

O disco foi gravado ao vivo e apresentava, entre outros , os maravilhosos sambas da Vila Isabel, "Quatro séculos de modos e costumes" de Martinho da Vila e "Sublime Pergaminho", de autoria de Carlinhos Madrugada,  Zeca Melodia  e Nilton Russo, da Unidos de Lucas. Embora as escolas Império da Tijuca, Independentes do Leblon e Unidos de São Carlos tenham desfilado neste ano de 68, seus sambas não constam do histórico disco.

A partir do sucesso de vendas que foi este LP, as gravadoras passaram a se interessar por reunir os sambas-enredo. Pessoalmente, passei a adquirir o disco a partir de 1971, embora eu tenha em casa o de 1969, comprado por minha esposa, muito antes de eu tê-la conhecido. Veja algumas capas dos primeiros LPs.


O Disco de 1969
Os sambas de 1970
Sambas-Enredo de 1971


Quantos e tantos belos sambas-enredo fizeram enorme sucesso e são até hoje cantados em todas as rodas de samba e carnavais atuais. Sem pesquisar muito, tenho certeza que o leitor, na memória vai citar muito mais do que eu registro em minha lista:

Bahia de Todos os Deuses (Salgueiro); Heróis da Liberdade (Império Serrano), Iaiá do Cais Dourado (Vila Isabel), Lendas e Mistérios da Amazônia (Portela), Lapa em Três Tempos (Portela), Ilu Ayê (Portela), Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade (Vila), Lendas do Abaeté (Mangueira), O mundo melhor de Pixinguinha (Portela), O rei da França na Ilha da Assombração (Salgueiro), A Festa do Divino (Mocidade), Sonhar com rei dá leão (Beija-Flor), O amanhã (Ilha), O que será (Ilha)...xi moçada...vou parar por aqui...sabe porque? Até aqui citei alguns gravados até o fim dos anos 70.Acredito que os anos 80 foram o de maior interesse nos discos e nos sambas-enredo....

Este era o tempo em que as alegorias, as comissões de frente, os carnavalescos eram menos importantes que os sambas-enredo. Os autores quando ganhavam os concursos "tiravam o boi da sombra", como diz o Zeca Pagodinho. A coisa mudou e a qualidade dos sambas também...

Terminemos com um que foi dos melhores sambas-enredo de todos os tempos. Do Carnaval vitorioso da Vila, no ano do centenário da Abolição da Escravatura, 1988, uma obra prima : Kizomba, a Festa da Raça. Valeu Luis Carlos da Vila!!!

Desta vez quero indicar o site http://www.sambariocarnaval.com/, com uma pesquisa belíssima feita por Cláudio Carvalho, além do próprio livro citado de Sérgio Cabral. Abração e até a próxima.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O soldado que escreveu e participou da História do Brasil

Todo mundo conhece e canta um dos mais belos sambas de enredo do carnaval carioca, graças a uma gravação de Martinho da Vila, de 1975, no disco "Maravilha de Cenário"...até você, meu caro leitor, já está sabendo qual é o samba, certo? Cantarole comigo: "Vejam, esta maravilha de cenário...


Com esta obra-prima, intitulada "Aquarela Brasileira", o meu  querido Império Serrano desfilou em 1964 e o autor, tanto da letra como da  melodia, chama-se Silas de Oliveira Assunção, que fez inúmeros sambas contando e descrevendo fatos marcantes da História do Brasil, como era a regra dos enredos do carnaval carioca. São de sua autoria também, "Cinco Bailes da Corte", "D. João VI", "Heróis da Liberdade", "Legado de Getúlio Vargas", "61 anos de República", entre tantos de outros.

Mas este mestre do samba também participou de uma página triste da História do Brasil e creio que poucas pessoas sabem. Mas o sambabook está aqui pra lhe contar...

A Segunda Guerra Mundial começou em 1939, com a Alemanha invadindo a Polônia...aos poucos o caldo foi engrossando e os governos dos países se viam compelidos a tomar algum partido. No caso brasileiro, dizem que nosso Presidente Gegê era simpático ao eixo do mal. O fato é que Getúlio Vargas demorou a escolher de que lado ficaria e, parece, que resolveram acelerar esta decisão.

O que registra a oficial história é que somente depois de uns submarinos alemães torpedearem e afundarem alguns navios brasileiros, na própria costa nordeste brasileira, é que entramos na briga. Era já uma exigência da comoção nacional, registravam os jornais de então. 


O soldado Silas de Oliveira é o do meio.
Um destes ataques ocorreu em agosto de 1942, no litoral da Bahia, quando um submarino nazista atingiu o navio Itagiba,  que saíra do Rio de Janeiro levando militares integrantes do 7º Grupo de Artilharia de Dorso, sediado no bairro de Campinho, com soldados nascidos e criados, em sua maioria em  Cascadura, Madureira, Oswaldo Cruz e Vaz Lobo. Entre estes o nosso Silas de Oliveira, ainda com 25 anos, residente no pé do Morro da Serrinha.

Com o impacto do torpedo, o navio afundou rapidamente, levando ao desespero 161 ocupantes, dos quais 83 sobreviveram, achados em alto mar e recolhidos pelo Iate Aragipe e levados para a cidade baiana de Valença,  para os necessários cuidados médicos. Graças a Deus, e para o bem do samba , nosso soldado Silas  conseguiu se salvar, atirando-se numa das poucas baleeiras que escaparam dos destroços, já repleta de outros colegas de naufrágio, até ser recolhido pelo tal iate. Somente em dezembro ele retornaria ao Rio, para a tranquilidade de sua família e de sua namorada, Elane, com quem se casaria mais tarde. A ela contou que, durante o naufrágio, tinha bebido muita água, razão de sua internação por tanto tempo.

É de a gente ficar pensando...quanto nós teríamos perdido de sambas maravilhosos caso esta vida tivesse sido interrompida? Quase todos os sambas de Silas de Oliveira que conhecemos foram produzidos depois desta época. Seria menos um artista, que num sonho genial, escolheu o Império Serrano pra fazer seu carnaval.


Para saber mais, sobre este gênio do samba-enredo, faça como eu fiz e leia: "Silas de Oliveira,  Do jongo ao samba-enredo", de Marília T. Barbosa da Silva e Arthur L. de Oliveira Filho. Vai lá e lê.  Um abraço e até a próxima.