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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O esquecido Gradim merece estar aqui

Uma das tarefas deste espaço é dar luz a importantes personagens do nosso samba. Em muitas pesquisas e leituras que faço sobre alguns destes craques, as dificuldades são imensas. Na última postagem, citei dois esquecidos compositores, sobre os quais se tem pouca notícia, mesmo relendo livros que, para mim, são referências no assunto,  como os de Ary Vasconcelos (Panorama da Música Popular Brasileira) e o Dicionário da Música Popular Brasileira, de Ricardo Cravo Alvim. Hoje quero dar alguma luz a Gradim, sugestão feita por um assíduo leitor, em seus comentários.

Muito pouco encontrei sobre a vida de Gradim, cujo nome é Lauro dos Santos. Mas graças a suas composições e parcerias com Noel Rosa, Ismael Silva e outros, há registros de belos sambas, gravados no inicio da história do samba.

Sua primeira canção gravada foi "Vem, meu bem", na voz de Benício Barbosa, pelo selo Odeon, em 1928. Ainda identificado como Lauro dos Santos, teve a ventura de ser gravado por Francisco Alves e Mário Reis, dois dos maiores cantores da época, que registraram "Quá, quá, quá", em dezembro de 1930.

A dupla voltaria a gravar Gradim, em 1931, pela Odeon, através do samba "Nem assim", todos de sua exclusiva autoria, sem participação de parceiro. Temos a letra de "Nem Assim":

Ai minha vida
Oh Deus tenha pena de mim
Deixei a maldita malandragem
Para ver se endireitava
Mas nem assim

Para ver se endireitava
Eu deixei a malandragem
De que não adiantava
Nunca mais levei vantagem
Vou voltar a vida antiga
Pra voltar a ser feliz
Do contrário Deus castiga
Foi no samba que eu me fiz

Ai minha vida
Oh Deus tenha pena de mim
Deixei a maldita malandragem
Para ver se endireitava
Mas nem assim

No samba foi que eu nascí
Nele tenho que morrer
Porque isso eu já vi
Que é o meu maior prazer
Quem achar que não está bem
Pode até falar de mim
Não vou atrás de ninguém
Hei dei viver sempre assim

Gradim era mais um dos frequentadores dos bares do Estácio e conviveu com Ismael e aquela turma incrível e criativa que deu a roupagem definitiva ao samba que hoje conhecemos.

Participante também do bloco dos Arengueiros, que deu origem a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, Gradim foi da primeira geração de compositores da agremiação, ao lado de Cartola, Carlos Cachaça, Zé com Fome, o depois chamado Zé da Zilda, e outros. Integrou também a comissão de bateria, no primeiro e vitorioso concurso de 1932, ao lado de Maciste, Martins, Ismar e Lúcio. Seu nome sempre é citado como o responsável pela entrada de Jamelão, o mais famoso intérprete de sambas da Mangueira, na Escola.

Com Noel Rosa compôs "Quero Falar com Você", gravado em 1933, na voz do cantor João Petra de Barros.




Outro samba bem bacana incluí Ismael Silva e Noel Rosa na parceria com Gradim. É "Sempre Sorrindo", gravado também por João Petra e que integra a coleção "Noel Pela Primeira Vez", que, Graças Deus, tenho aqui comigo. 


Não sabemos outros dados de Gradim. Nada. Onde nasceu, em que ano e nem quando morreu. Achei referência de que foi um bom jogador de futebol, tendo atuado ao lado de Leônidas da Silva, o famoso craque da seleção, criador da bicicleta. Como muitos de sua época, Gradim faleceu vítima de tuberculose.

Outros sambas de Gradim são: "Samba na Mangueira", "Não se faz de inocente", e "Alegria", famosa na voz de Cartola, mas poucas vezes citada como parceria com nosso Gradim.


É isso aí... por esta é só. Vamos ver se acho alguma coisa sobre seu amigo Maciste. 

Um abraço e até a próxima. Fique à vontade para comentar e sugerir pautas pra mim...motiva-me muito. 





sábado, 30 de janeiro de 2016

Os desfiles das Escolas de Samba: Como tudo começou

Para muitos, o desfile das Escolas de Sambas do Rio de Janeiro é o maior espetáculo do planeta. Mas o leitor sabe como este concurso começou? 

O desenhista e compositor Antônio Nássara, em entrevista concedida a José Guilherme Mendes, da Revista "Ele e Ela", edição de janeiro de 1976,  nos ajudou: "Na época, eu era paginador do Jornal  Mundo Esportivo, dirigido por Mário Filho. Naquele tempo, praticamente, só existia futebol e remo. Eram só essas duas atividades para um jornal especializado. Quando terminava o campeonato, o jornal ficava três, quatro meses sem muito o que noticiar. Foi então que um repórter teve uma ideia genial. Foi Carlos Pimentel, um camarada altamente conhecedor dos assuntos e fatos da cidade do Rio de Janeiro, estava por dentro deste negócio de samba das escolas. Então, Mário Filho, que era um homem de enorme visão, encomendou a Pimentel entrevistas com o pessoal das Escolas de Samba. Na época, compositores como Noel, Almirante e Sinhô já eram conhecidos, mas outras figuras como Cartola, Gradim e Maciste, não. Estes últimos eram inéditos. Quem os conhecia era o Pimentel, que frequentava o Estácio, o Rio Comprido, para saber das novidades. E deu um estalo no Mário Filho: 'Pimentel, e se em vez de entrevistas, a gente fizer uma disputa entre eles?'. Naquele momento, nascia o concurso de escolas de samba".

Mário Filho pediu a Pimentel que "bolasse" uma espécie de regulamento e este escolheu os quesitos e a pontuação a serem avaliados. Assim, evolução, Porta-bandeira, bateria, harmonia e outros foram criados. O Jornal bancou um coreto na Praça Onze, sanduíches de mortadela, cerveja e salgadinhos para atrair uns julgadores. Nássara citou alguns membros deste júri que lembrou: Álvaro Moreira e sua esposa, bem como Orestes Barbosa. Pesquisando, descobrimos mais alguns destes jurados: José Lira, Fernando Costa, Raymundo Magalhães Júnior e J. Reis.

Como o rádio ainda engatinhava, os jornais eram os maiores divulgadores dos sambistas e fez com que , rapidamente, o samba criado pelo pessoal do Estácio se espalhasse por todo o Rio de Janeiro. Era o ano de 1932 e assim foi criado o Concurso de Escolas de Samba. Na oportunidade o resultado foi o seguinte:

Campeã: Estação Primeira de Mangueira
Vice- Campeãs: Segunda Linha do Estácio e Vai Como Pode
Terceira Colocada: Unidos da Tijuca

Muitas outras escolas participaram deste primeiro certame, mas , como não foram premiadas, não foram divulgadas...

É isto... um abração e até breve.