Mostrando postagens com marcador Pixinguinha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pixinguinha. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Que bom: Samba e Choro é coisa de preto sim!

O volumoso tráfico de negros, trazidos da África durante séculos, para o trabalho escravo no Brasil, tem sido objeto de muitos estudos e publicações, levando em consideração os mais diversos aspectos. Nesta semana, empreendi um tempo grande em leituras sobre as origens destes negros trazidos para as diversas regiões do Brasil, para trazer pra vocês um pouco deste conhecimento. E quero hoje registrar algumas percepções que se relacionam com o samba e o choro.

Podemos afirmar que os negros trazidos da África eram originários de dois grupos distintos, não só geograficamente falando, mas também referindo-nos a seus hábitos, cultura e religião: os Bantus e os Sudaneses ou oeste-africanos. Igualmente interessante observar, além da origem de onde vieram, para onde foram levados. Vejamos um mapa que separei para o leitor com estes registros:



Os Bantus vieram das regiões que se estendiam desde a costa atlântica africana, de países como Angola, até o Congo e Moçambique e foram levados aos portos do Rio de Janeiro e de Pernambuco. Já os Sudaneses eram originários da Guiné, Costa do Marfim, Benin, Togo, Gana e Nigéria, e foram trazidos em massa para a Bahia. Esta origem, e as diferenças entre as culturas, explica muito, em minha opinião, porque a Bahia e o Rio de Janeiro são tão distintos, no que tange a religiosidade praticada em uma e outra cidade. E é, justo neste ponto, que acabam oferecendo influências diferenciadas para as manifestações musicais dos dias de hoje. E até mesmo explica como surgiram, no Rio, o samba e o choro.

A grosso modo, podemos dizer que o povo vindo de Guiné e região são de cultura religiosa Iorubá. São povos monoteístas de língua nagô, que cultuam o Deus Olorum, e têm os orixás como secundários. O Candomblé, muito presente na Bahia, é um belo exemplo desta unicidade religiosa.

Os Bantos já apresentam outras características. Não falavam uma única língua e sim várias aparentadas e não possuíam uma religiosidade bem unificada, sendo dados a sincretismos com outras manifestações. No Rio, em contato com o catolicismo e o espiritismo,  gerou o que conhecemos como Umbanda.

Na passagem do século XIX para o XX, em seguida à Abolição da Escravatura e também da decadência da cultura do café, na região do Vale do Paraíba, um grande contingente de negros bantos se desloca das fazendas para o Rio de Janeiro, visto que lá já não tinham meios de sobrevivência, como ex-escravos e sem trabalho para o sustento. Vinham mesmo a pé, seguindo a estrada de ferro que ligava o Rio a São Paulo, e acabaram por ficar nos bairros de subúrbio carioca, especialmente em Madureira e região. Eram negros de formação rural, bem diferentes dos Iorubás mais urbanos da Bahia.

Cerca de 30 anos antes, chegaram ao Rio também os negros de origem Iorubá, vindos da Bahia. Mas estes vieram de navio, instalando-se na região central da cidade, onde ficava o porto e logradouros próximos. Diferentemente dos bantos das fazendas de café, os iorubás já constituíam uma espécie de classe média em Salvador, e alguns de seus descendentes tinham acesso a livros e ao estudo regular.

Note o leitor, assim como eu percebi, uma diferença de preparo entre os negros que vieram da Bahia e se instalaram na Cidade Nova e os que migraram das fazendas paulistas e se fixaram nos morros suburbanos do Rio. Também o Rio do Centro, essencialmente urbano, era bem diferente do subúrbio, quase uma zona rural, à época. Enquanto os bantos se misturavam aos cariocas rurais, os iorubás abriam seus pequenos comércios ou se empregavam no poder público como nos Correios ou na Guarda Nacional. Alfredo da Rocha Viana, pai de Pixinguinha, um destes baianos , era funcionário da Repartição Geral de Correios e Telégrafos, e Hilária Baptista de Almeida, a famosa tia Ciata, tinha um pequeno comércio no ramo de alimentação que empregava mais que uma dezena de pessoas. Seu marido, João Batista da Silva, que tinha cursado medicina em Salvador, sem ter concluído contudo, era funcionário da Delegacia de Polícia.

Enquanto estes baianos iorubás mantinham seu culto religioso em suas casas, seguindo no Candomblé, os  negros bantos iam misturando santos do catolicismo e dogmas do espiritismo,  nos terreiros de umbanda do subúrbio. Embora para maioria da população branca do Rio tudo fosse "macumba" e coisa de preto. 

Musicalmente, os baianos se inseriram logo no carnaval carioca dos Ranchos, já que eram iniciados em teoria musical e dominavam instrumentos de sopro e corda, liam partituras e executavam polcas, lundus e maxixes com facilidade e excelência na execução. Entre eles, surgiu Pixinguinha, o gênio da raça, que por sua genialidade e beleza de suas composições, ganhou penetração na sociedade carioca e criou o chorinho, a expressão maior da nossa música instrumental.

Um pouco mais tarde, em meados da década de 1920, os bantos começam a aparecer no cenário musical também. Estes, não sendo iniciados em teoria musical, faziam seus batuques nos morros periféricos dos subúrbios do Rio, se organizaram em grupos de percursionistas, introduzindo aqui e ali, cada vez mais novos elementos de ritmo, que acabaram por formar os blocos carnavalescos que deram origem às escolas de samba. Entre seus líderes, Mano Elói, Carlos Cachaça e Carola, na Mangueira, e Paulo Benjamin de Oliveira, que embora nascido no centro em 1901, mudou-se para Oswaldo Cruz, bairro próximo a Madureira, ainda jovem, e formou o bloco  Baianinhas, que deu origem a Portela. 

No início da década de 1930 já existiam três dezenas de Escolas de Samba nos subúrbios da Central do Brasil. E os cantores do rádio, que começa a ganhar espaço, buscaram conhecer a novidade nos morros, e gravam as composições dos artistas bantos, que acabaram por fixar o samba como uma das maiores expressões da nossa música. 

Tudo isto explica as diferenças entre as manifestações musicais do Rio e Janeiro e da Bahia. Um é choro e samba, o outro é batuque e axé. Um é roda de samba e choro, o outro é trio elétrico, Filhos de Gandhi e Olodum. O que importa mesmo é que tudo isso é coisa de preto.

Para saber mais sobre o assunto e muito mais, recomendo a leitura do excelente livro da professora Marília Trindade Barboza, de quem tenho orgulho de ter contato vez por outra, chamado "Coisa de Preto". Ela é também autora de várias obras biográficas como as de Silas de Oliveira, Paulo da Portela e Cartola, essenciais em minha estante.

Gostou? Então inscreva-se no blog, siga-o e fique à vontade para comentar. Este é o combustível e a motivação para seguir dando luz ao samba e ao choro, missão maior deste espaço. Um abraço e até a próxima.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Para o "Pelé" do bandolim a perfeição era uma meta.



As histórias de hoje são de Jacob do Bandolim. Um extraordinário instrumentista. Um compositor inspiradíssimo. Um cuidadoso historiador da música. Enfim, como Pelé que nasceu depois e ficou mais conhecido que ele, eu digo que Jacob do Bandolim é um Pelé do Choro. Mas o certo mesmo era dizer que o Pelé é um Jacob do Bandolim do futebol.

E já que falamos de futebol, comecemos por registrar duas de suas composições ligadas ao tema, tendo, desde já, claro que Jacob era torcedor do Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, onde nasceu, a 14 de fevereiro de 1918. Mas não pensem que tinha origens portuguesas. Sua mãe era uma judia polonesa refugiada da Primeira Guerra Mundial. Mas note o leitor como a guitarra portuguesa aparece logo na introdução do choro "Vascaíno", gravado em 1951.



Mas a sua paixão pelo Vasco não impediu de compor um belíssimo choro cujo título é "Ginga do Mané", homenagem deliciosa ao gênio Mané Garrincha, logo após a conquista da Copa do Mundo de 1962.


Como Pelé, Jacob teve também o seu parceiro de muitas glórias. E se o Pelé teve Coutinho pra realizar as tabelinhas inesquecíveis na área adversária, Jacob encontrou o camarada ideal para acompanhar o seu bandolim em 1939, na Rádio Ipanema. Era Benedito César Ramos de Faria, um violonista que servia ao exército no Forte de Copacabana e frequentador da Rádio Ipanema que ficava próxima, ali no Posto 6, em cima do Cassino Atlântico. Um belo dia o Jacob precisou de um violonista e chamou César Farias para um teste no terraço do prédio. Foi o bastante pra nunca mais se separem e mais tarde constituírem o Conjunto Época de Ouro, que até hoje nos brinda tocando choros, mesmo tendo já alterado sua formação tantas vezes. E César Farias, pra quem não está ligando o nome à pessoa, foi o pai de Paulinho da Viola. 


O Conjunto Época de Ouro merece uma postagem à parte. Formado inicialmente por César Farias, Carlinhos Leite (violões de 6 cordas), Dino (7 cordas), Jonas (cavaquinho) e Gilberto (pandeiro), além do seu criador e idealizador, o próprio Jacob do Bandolim, o Época de Ouro marcou nas gravações de choros dos anos 60. Escutemos "Vibrações, choro de autoria do Jacob do Bandolim, que inclusive deu nome ao primeiro LP do conjunto.


O grande maestro Radamés Gnatalli compôs "Retratos", uma suíte para bandolim, orquestra e regional, em quatro movimentos. Cada um deles homenageando um ícone da nossa música instrumental. No primeiro Pixinguinha, no segundo Nazareth, no terceiro Anacleto de Medeiros e por fim, Chiquinha Gonzaga. Pois Jacob, que sempre buscava a perfeição, estudou a peça a exaustão, ensaiou e apresentou-se no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro, em agosto de 1964, acompanhado da orquestra da gravadora CBS.

Todos sabemos que o Pelé com a bola nos pés sempre foi genial...mas nem sempre foi feliz ao fazer seus comentários sobre os mais diversos assuntos. Pois até nisso eu considero os dois parecidos.  Certa vez Jacob  disse que "Delicado", um popular baião de Waldir Azevedo "era um marco deteriorador da música brasileira". De outra vez disse que "a música de Waldir Azevedo era um amontoado de toleimas , de sandices". Sobre a bossa-nova, que havia entrado na moda no final do anos 50, considerava "uma tentativa de imitação do jazz, que eliminava as mais autênticas inflexões da música brasileira". Caramba, o homem não gostava de algumas das mais belas manifestações de nossa música e deixava claro.

Mas fiquemos com a maravilhosa carioquice do nosso personagem, que não bebia e nem era da "night", mas era considerado um dos maiores representantes do choro, manifestação típica do seu Rio de Janeiro. O que dizer de "Noites Cariocas"...uma das mais perfeitas traduções da cidade?


Jacob do Bandolim sofreu com seu coração. O primeiro infarte teve em 1967, logo após forte comoção, ao ser aplaudido de forma efusiva por uma platéia composta por jovens no Teatro Casa Grande. Acabara de tocar "Lamentos" de Pixinguinha e confessou o espanto emocionado em outra oportunidade: "Para mim foi uma grande felicidade ter sido aplaudido pelos cabeludos, que compreenderam a minha arte". Acabou por falecer do coração, no terceiro infarte ocorrido logo após uma visita feita a casa de Pixinguinha, em 13 de agosto de 1969.

Para saber mais e ouvir muito mais sobre Jacob do Bandolim, as melhores fontes são o livro "Jacob do Bandolim", de Ermelinda de Azevedo Paes, o sítio jacobdobandolin.com.br e "Choro, do Quintal ao Municipal", excelente livro de Henrique Cazes. Quando puder beba nestas fontes. Um abraço e até a próxima.


segunda-feira, 8 de abril de 2013

O Santo tem muitos devotos

Quando escrevi sobre Pixinguinha já imaginava que a audiência seria grande. Era esperado...mas o que rolou de e-mail e de sugestão sobre o santo foi tanto que vale a pena dar um pouco mais de continuidade ao assunto.

Um amigo me perguntou sobre  a letra de Rosa e algo mais sobre o compositor Otávio de Souza. A primeira grande gravação daquela valsa, já com letra,  foi feita por Orlando Silva, em 1937.

 

A Rosa, de 1917, sem letra, tinha 3 partes como a maioria das peças de chorinho feitas à época. Mas com a letra, acabou ficando com apenas duas partes, tendo versos diferentes para a primeira. Eis a letra que Otávio de Souza colocou:

Tu és, divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor
Se Deus me fora tão clemente
Aqui nesse ambiente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rósea cruz
Do arfante peito seu


Tu és a forma ideal
Estátua magistral oh alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendor da santa natureza


Perdão, se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh flor meu peito não resiste
Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar em esperar
Em conduzir-te um dia
Ao pé do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em preces comoventes de dor
E receber a unção da tua gratidão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer
Outro amigo me escreve registrando que eu deveria ter colocado o choro mais lindo deste mundo na postagem, que, na opinião dele e de muitos , é "Ingênuo". O choro é de parceria com Benedicto Lacerda que, pra quem não sabe, quitou as prestações da casa de Pixinguinha, numa espécie de adiantamento de direitos autorais, quando o mestre estava numa fase bem dura. Algumas publicações citam Ingênuo, como sendo a peça preferida do São Pixinguinha. Eis uma mostra com o genial Ronaldo do Bandolin no solo, Dino Sete Cordas, e o Conjunto Época de Ouro. 


Resisti ao máximo em fazer menção a Carinhoso na postagem do Santo, correndo o risco de receber indagações do porque não citar esta obra de Pixinguinha e letra de João de Barro. Como esta canção é sucesso também do outro lado do mundo, pesquisei uma interpretação em japonês e mostro pra vocês. A interpretação e de

高田泰久&布上智子 谷中ボッサ


 Até a próxima...

sexta-feira, 29 de março de 2013

São Pixinguinha

Não é fácil pra ninguém escrever sobre seus ídolos. Eu confesso um pouco de medo, oriundo do profundo respeito que tenho por este extraordinário brasileiro que, nascido Alfredo da Rocha Viana Filho, ficou  conhecido por todos como Pixinguinha. É uma ousadia escrever sobre ele, ainda mais quando se tem , Graças a Deus, muita coisa espalhada por aí. Mas este é o objetivo deste blogue, lembram? Vou tentar trazer para meus leitores alguma novidade, fatos que não são tão conhecidos.

Uma de suas obras mais complexas e de difícil execução chama-se "Gargalhada". A confusão já começa no gênero, enquanto uns consideram um fox-concerto, outros nomeiam como choro. O certo é que Pixinguinha compôs Gargalhada quando já tinha passado a tocar saxofone e registrou, para Altamiro Carrilho, que tinha escrito a obra em homenagem a ele, um dos poucos capazes de executá-la. Certa vez um amigo flautista me disse que, a partir de um ponto da música,  parece que duas flautas tocam ao mesmo tempo. Escutem um trecho desta interpretação do Conjunto Época de Ouro, tendo Antonio Rocha na flauta, captada numa apresentação ao vivo do grupo.




Uma das melhores histórias que envolvem  Pixinguinha dá conta de que certa vez, voltando pra casa, foi abordado por um ladrão que lhe pediu, além do dinheiro e o relógio, mais a caixinha que ele carregava. Pixinguinha entregou tudo, inclusive a caxinha que era onde estava sua flauta. O bandido pediu também fósforos para acender um cigarro e a chama iluminou o rosto do assaltado, sendo logo reconhecido pelo ladrão. Sem graça, o assaltante se desculpou do infortúnio: "Desculpe seu Pixinguinha, eu conheço o senhor aqui do bairro e suas serenatas, não perco uma..."e devolveu tudo. Como estavam perto da casa de Pixinguinha, este convidou o ladrão a entrar e sentaram pra tomar umas cervejinhas juntos até de manhã.

Uma de suas primeiras composições, gravada em 1917, foi Rosa, de inúmeras novas versões e nas mais variadas vozes. O nome original desta valsa era "Evocação", mas logo ganhou o nome de Rosa, quando Otávio de Souza, um mecânico que morava no Engenho de Dentro, natural em Nova Friburgo, compôs a letra.

 

Pixinguinha sempre gostou de tomar "umas e outras"  como diziam os cariocas de seu tempo. Nas décadas de 50 e 60, e já com uma certa idade, ainda era assíduo frequentador  do Bar Gouveia, ali na Travessa do Ouvidor, no Centro do Rio. Chegava, sentava sempre na mesma mesa e tomava aquelas geladas, antecedidas por uma "boa calibrina". Em março de 1963, ao entrar no Gouveia comoveu-se ao ser recebido por diversos músicos que executavam "Carinhoso". Era uma homenagem do Sr. Guilherme Gouveia, dono do Bar, que oferecia ao grande mestre uma cadeira cativa. Na placa os dizeres "Ao professor Pixinguinha, a Casa Gouveia oferece a sua cadeira cativa - 30.03.1953 a 30.03.1963". Entre os músicos presentes estavam, entre tantos,  Donga, João da Baiana, Luna e César Faria, com seu filho Paulo César, que depois passou a ser chamado de Paulinho da Viola.
Alfredo Neto, Pixinguinha, João da Baiana e Alfredinho do Flautim
 
Outro fato interessante ligado a Pixinguinha ocorreu quando dos festejos de seus 70 anos, em 1968. Quando tudo já estava marcado e preparado para uma grande homenagem, vai que o genial Jacob do Bandolin, que também era um dos melhores pesquisadores quando o assunto era música, descobre que Pixinguinha não nascera no dia 23 de abril de 1898, como todo mundo achava, inclusive o próprio. Jacob foi a a igreja de Santana, onde Pixinguinha havia sido batizado, e constatou que o certo era 23 de abril de 1897. Mas quando ele contou pro Pixinguinha ouviu do velho e genial compositor um pedido: "Vamos guardar segredo. Já pensou a decepção para o pessoal que está prestando todas estas homenagens a mim? Museu da Imagem e do Som, Governo do Estado, Assembléia Legislativa...vixe". E assim foi feito. Mas podemos afirmar que neste ano de 2013, Pixinguinha faria 116 anos.

Altamiro Carrilho e Carlos Poyares gravaram um dos discos de que mais gosto, só com peças de Pixinguinha, em 1975. O álbum e´ "Pixinguinha de novo", bom do princípio ao fim, mas quero dividir com meus leitores a faixa "Desencanto", um maravilhoso e emocionado choro, dos meus preferidos.







Num belo sábado de fevereiro de 1973, a Banda de Ipanema tinha um desfile marcado pelas ruas de Ipanema. E neste mesmo dia, 17,  Pixinguinha também tinha um compromisso em Ipanema: batizar o menino Rodrigo, filho de Euclides, um rapaz mineiro que muito foi ajudado por Pixinguinha, nos seus primeiros dias na Cidade Maravilhosa. Pixinguinha chegou cedo na Igreja de Nossa Senhora da Paz e, durante o batismo, passou mal e veio a falecer ali, dentro de um igreja, comprovando e confirmando o apelido dado por Hermínio Belo de Carvalho, um de seus parceiros:  São Pixinguinha.

O livro "Pixinguinha vida e obra', do jornalista e escritor Sérgio Cabral é uma referência em biografia do mestre Pixinguinha. Foi nele, entre outras fontes, que busquei saber sobre a vida do personagem desta postagem. Sugiro que leiam e se deliciem com esta grande vida e obra. 

Um abraço e até a próxima. 

segunda-feira, 4 de março de 2013

A Pedra do Sal ontem e hoje

Quando escrevi sobre o Rio de antes do samba, uma jovem amiga carioca, mandou-me uma mensagem referindo-se a uma roda de samba que acontece na Pedra do Sal, perto da Praça Mauá, no centro da Cidade Maravilhosa. Confesso que desta roda nunca participei, mas lembro do Morro da Conceição e da subida da Pedra do Sal, desde os tempos em que minha mãe me levava no Hospital dos Servidores, ali no bairro da Saúde. O lugar é cheio de história e vale a pena a gente registrar aqui.

Já li em vários livros que o bairro da Saúde e adjacências eram o local do Rio onde, nos séculos XVII e XVIII desembarcavam os escravos vindos da África para serem comercializados. Alguns não suportavam as condições precárias da longa viagem e já chegavam mortos ao destino. E muitos outros chegavam doentes, fracos e sem condições de serem vendidos naquele estado de saúde. Neste caso eram levados para as chamadas "casas de engorda" para serem alimentados e recuperados. O mar avançava até a região onde hoje está a Pedra do Sal, início da subida do Morro da Conceição.  Nesta região localizava-se toda a estrutura que preparava os negros para a venda no Cais do Valongo.


A tal pedra já chamou-se "quebra-bunda", mas depois ganhou o nome de Pedra do Sal, devido ao grande volume de sacas de sal levadas pelos negros morro acima. Dizem que a escadaria que até hoje se vê no local foi esculpida pelos próprios escravos, sem a utilização de ferramentas adequadas, para facilitar a subida.

Já na virada do século XIX para o XX, depois portanto da Abolição da Escravatura, começaram a chegar na região, negros vindos da Bahia, dando origem a uma comunidade que praticava, sem grandes problemas, seus hábitos religiosos, suas rodas de capoeira e batucadas. É muito comum a gente encontrar referências a "Pequena África", região compreendida entre a Praça Mauá e o Catumbi, no Rio, passando pela Praça XI,  onde residiam muitos negros vindos principalmente da Bahia.

Esta vocação da região da Pedra do Sal continuou por ocasião do êxodo de trabalhadores, ex-escravos, das fazendas de café do estado do Rio e do Interior de São Paulo, por conta da decadência do comércio de café. Os negros então buscaram abrigo na capital federal, em especial, onde sabiam que já residiam outros semelhantes baianos.

Muitos consideram esta região portuária do Rio de Janeiro, como a de origem do samba e do choro, porquanto moraram ou frequentavam a região, ícones como  João da Baiana, Donga, Sinhô, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, entre outros. Também da região era Hilário Jovino, criador de um dos primeiros Ranchos Carnavalesco do Rio, o Dois de Ouro. De lá também saíram as famosas baianas Bibiana, Marcelina e Ciata que promoviam em suas casas, batuques que mais tarde deram origem ao samba carioca que conhecemos. 

Não tendo dúvida da importância da área para a comunidade negra do Rio e para a cultura brasileira, o Governo do Estado Rio de Janeiro decretou o tombamento da Pedra do Sal, como patrimônio  cultural, em 20 de janeiro de 1984, devolvendo para o lugar um merecido movimento de sambistas que realizam as tais rodas de sambas, lembradas por minha amiga Ligia Tralhão.


Eu pesquisei muitos videos, livros e sítios na internet para produzir este texto. Mas recomendo, para quem quiser saber mais sobre  a Pedra do Sal a leitura de "Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro" do Roberto Moura. É um referência sobre as origens do samba urbano carioca. Vai lá e lê.

Fique à vontade para tecer algum comentário. Um abraço, grato pela visita e até a próxima.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A Festa da Penha


Hoje, quando a gente escuta falar da Penha, bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, em noticiários, o assunto é violência: Complexo do Alemão, Vila Cruzeiro, tráfico de drogas,  UPP, Adriano Imperador - não o da Grécia é claro, mas o ex-atleta de futebol. Todavia nem sempre foi assim. Lá está a Igreja de Nossa Senhora da Penha da França, no topo de uma grande rocha, que teve um tempo glorioso e especialmente ligado ao samba, nas primeiras décadas do século XX.

Lembro de ter ido, algumas vezes e quando criança,  ao Santuário da Igreja da Penha, numa época de festas, com muita gente, subindo as escadarias famosas, pagando suas promessas...muitas barraquinhas de comidas e venda de velas. O que ficou gravado na minha lembrança foi a magnífica vista. De lá se avistava, ao menos naquela época, desde o Aeroporto do Galeão, na Ilha do Governador, até o  Pão de Açúcar, já na zona sul da cidade.

Contam os livros que a igreja começou como uma pequena ermida, erguida pelo proprietário das terras, Capitão Baltazar de Abreu, ainda em 1635, em agradecimento a ter sobrevivido a um eminente ataque de uma cobra. Ele pediu e a Santa ajudou: “Minha Nossa Senhora, valei-me!”. Diz que, do nada,  apareceu um lagarto – de que tamanho seria este bicho? – que teria atacado a cobra e livrado a vida do tal capitão. Com o passar dos tempos, décadas e séculos,  a ermida foi se transformando em igreja e recebendo romeiros de toda a cidade. Inicialmente a festa era num domingo de setembro, mas devido a um grande temporal, foi transferida pra outubro e ficou. Mais do que isso, no lugar de ser apenas no primeiro domingo de outubro, passou a ocorrer em todos os domingos daquele mês. Foi então que se tornou um dos eventos mais importantes do Rio de Janeiro.


Desde 1906, quando passou a ter a aparência que tem até hoje, com seus 365 degraus, atraí milhares de devotos que vão assistir às missas e pagar suas promessas, por graças alcançadas, através da subida, a pé ou de joelhos até o santuário.

Um pouco antes, ainda no século XIX, a presença maior era de portugueses, mas pouco a pouco, os negros foram ocupando os espaços, inicialmente para a prestação de serviços aos visitantes. Eram as baianas que subiam com seus tabuleiros pra oferecer seus quitutes. Roberto Moura descreve até que a famosa Tia Ciata era uma destas negras que não perdiam a festa. Ela e outras baianas ficavam do lado de fora da igreja e, depois das missas, faziam os seus agradecimentos aos seus orixás, pelas vendas...embora nestes tempos, os negros não fossem, digamos, bem aceitos no ambiente. Havia conflitos que espelhavam a realidade social de toda a cidade. Vamos lembrar que a abolição da escravatura se deu em 1888.

As baianas e seus quitutes

De 1879 a 1907, o padre português e abolicionista Ricardo Silva chegou a fazer do local um abrigo de escravos fugidos, tornando a área conhecida como “Quilombo da Penha”. Talvez devamos muito a este padre o fato de a Festa da Penha ter se tornado um reduto do samba. Lembro de já ter lido certa vez uma narrativa do escritor e compositor Nei Lopes sobre ser este padre o criador da Festa da Penha. Foi ele quem trouxe para o Brasil um arquiteto portuga que  reformou a igreja e acabou também construindo o Instituto Oswaldo Cruz.

Mas pra virar reduto de samba não foi tão fácil...em 1918 veio um outro padre que simplesmente proibiu a venda de bebidas alcoólicas na festa, bem como “batuques” e expressões de sincretismo, tentando dar um cunho exclusivamente católico à festa. Eu não vou registrar o nome dele não tá? Se o Padre Ricardo nos ajudou no desenvolvimento cultural, este atrapalhou. Ou melhor, tentou melar a festa, mas as baianas continuaram montando suas barracas e, claro, as rodas de samba rolaram soltas, Graças a Deus.

Sinhô, João da Bahiana, Caninha, Donga, Pixinguinha, Ismael Silva e outros mais marcavam ponto nos domingos de outubro pra mostrar seus sambas. Heitor dos Prazeres, sambista das antigas, registrou num depoimento: “Naquele tempo não tinha rádio, a gente lançava a música na Festa da Penha. Eu só fiquei conhecido a partir da Festa da Penha”. Foi então um dos primeiros canais de divulgação do samba e do sambista. Se o samba agradava na Festa da Penha, fatalmente faria sucesso no Carnaval seguinte.


Ismael Silva subindo as escadas da Penha com seu violão

Claro a repressão não tardou a chegar para acabar com as batucadas e as bebedeiras durante a festa. Mas os negros resistiam, os sambistas faziam da festa uma oportunidade de divulgação de seus sambas, de realização de suas rodas, com seus pandeiros, violões e cavaquinhos. Muita briga, muito conflito e muita prisão se deu então. Mas o sambista persistia por lá bravamente.

E a Festa se transformou, cresceu, não só como reduto de fé, mas também como de resistência cultural e foi citada por grandes compositores em seus sambas, como Noel Rosa e Cartola. Aliás, faço aqui uma brincadeira pra dar um ar interativo ao meu modesto sambabook. Quem lembrar destes sambas vai sugerindo sua inclusão nos comentários pra enriquecer o post.

A escadaria de 365 degraus

Quem quiser saber mais pode - e deve - ler, entre tantos,  o livro Geografia Carioca do Samba, de Luiz Fernando Vianna. Vai la´e lê. Agora é com vcs...