terça-feira, 23 de abril de 2013

Para o "Pelé" do bandolim a perfeição era uma meta.



As histórias de hoje são de Jacob do Bandolim. Um extraordinário instrumentista. Um compositor inspiradíssimo. Um cuidadoso historiador da música. Enfim, como Pelé que nasceu depois e ficou mais conhecido que ele, eu digo que Jacob do Bandolim é um Pelé do Choro. Mas o certo mesmo era dizer que o Pelé é um Jacob do Bandolim do futebol.

E já que falamos de futebol, comecemos por registrar duas de suas composições ligadas ao tema, tendo, desde já, claro que Jacob era torcedor do Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, onde nasceu, a 14 de fevereiro de 1918. Mas não pensem que tinha origens portuguesas. Sua mãe era uma judia polonesa refugiada da Primeira Guerra Mundial. Mas note o leitor como a guitarra portuguesa aparece logo na introdução do choro "Vascaíno", gravado em 1951.



Mas a sua paixão pelo Vasco não impediu de compor um belíssimo choro cujo título é "Ginga do Mané", homenagem deliciosa ao gênio Mané Garrincha, logo após a conquista da Copa do Mundo de 1962.


Como Pelé, Jacob teve também o seu parceiro de muitas glórias. E se o Pelé teve Coutinho pra realizar as tabelinhas inesquecíveis na área adversária, Jacob encontrou o camarada ideal para acompanhar o seu bandolim em 1939, na Rádio Ipanema. Era Benedito César Ramos de Faria, um violonista que servia ao exército no Forte de Copacabana e frequentador da Rádio Ipanema que ficava próxima, ali no Posto 6, em cima do Cassino Atlântico. Um belo dia o Jacob precisou de um violonista e chamou César Farias para um teste no terraço do prédio. Foi o bastante pra nunca mais se separem e mais tarde constituírem o Conjunto Época de Ouro, que até hoje nos brinda tocando choros, mesmo tendo já alterado sua formação tantas vezes. E César Farias, pra quem não está ligando o nome à pessoa, foi o pai de Paulinho da Viola. 


O Conjunto Época de Ouro merece uma postagem à parte. Formado inicialmente por César Farias, Carlinhos Leite (violões de 6 cordas), Dino (7 cordas), Jonas (cavaquinho) e Gilberto (pandeiro), além do seu criador e idealizador, o próprio Jacob do Bandolim, o Época de Ouro marcou nas gravações de choros dos anos 60. Escutemos "Vibrações, choro de autoria do Jacob do Bandolim, que inclusive deu nome ao primeiro LP do conjunto.


O grande maestro Radamés Gnatalli compôs "Retratos", uma suíte para bandolim, orquestra e regional, em quatro movimentos. Cada um deles homenageando um ícone da nossa música instrumental. No primeiro Pixinguinha, no segundo Nazareth, no terceiro Anacleto de Medeiros e por fim, Chiquinha Gonzaga. Pois Jacob, que sempre buscava a perfeição, estudou a peça a exaustão, ensaiou e apresentou-se no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro, em agosto de 1964, acompanhado da orquestra da gravadora CBS.

Todos sabemos que o Pelé com a bola nos pés sempre foi genial...mas nem sempre foi feliz ao fazer seus comentários sobre os mais diversos assuntos. Pois até nisso eu considero os dois parecidos.  Certa vez Jacob  disse que "Delicado", um popular baião de Waldir Azevedo "era um marco deteriorador da música brasileira". De outra vez disse que "a música de Waldir Azevedo era um amontoado de toleimas , de sandices". Sobre a bossa-nova, que havia entrado na moda no final do anos 50, considerava "uma tentativa de imitação do jazz, que eliminava as mais autênticas inflexões da música brasileira". Caramba, o homem não gostava de algumas das mais belas manifestações de nossa música e deixava claro.

Mas fiquemos com a maravilhosa carioquice do nosso personagem, que não bebia e nem era da "night", mas era considerado um dos maiores representantes do choro, manifestação típica do seu Rio de Janeiro. O que dizer de "Noites Cariocas"...uma das mais perfeitas traduções da cidade?


Jacob do Bandolim sofreu com seu coração. O primeiro infarte teve em 1967, logo após forte comoção, ao ser aplaudido de forma efusiva por uma platéia composta por jovens no Teatro Casa Grande. Acabara de tocar "Lamentos" de Pixinguinha e confessou o espanto emocionado em outra oportunidade: "Para mim foi uma grande felicidade ter sido aplaudido pelos cabeludos, que compreenderam a minha arte". Acabou por falecer do coração, no terceiro infarte ocorrido logo após uma visita feita a casa de Pixinguinha, em 13 de agosto de 1969.

Para saber mais e ouvir muito mais sobre Jacob do Bandolim, as melhores fontes são o livro "Jacob do Bandolim", de Ermelinda de Azevedo Paes, o sítio jacobdobandolin.com.br e "Choro, do Quintal ao Municipal", excelente livro de Henrique Cazes. Quando puder beba nestas fontes. Um abraço e até a próxima.


segunda-feira, 15 de abril de 2013

O nosso Formigão era simplesmente um abraço em toda a humanidade

Entre os grandes sambistas que completam 100 anos neste 2013 está o supersimpático Cyro Monteiro. Aquele mesmo cuja marca registrada era uma caixinha de fósforo, na qual ele fazia a batida do samba que cantava, sempre com aquele sorriso no rosto. Sua maneira de cantar era totalmente diferente dos demais cantores da era do rádio. Era um encaixe perfeito para o samba sincopado de Geraldo Pereira, de quem foi grande intérprete.

Ora vejam só com que samba ele começou a carreira, faixa gravada em 1938...


 "Se acaso você chegasse", de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, ele considerava como um Hino Nacional, pois foi a partir desta gravação que as coisas começaram a acontecer de verdade pra ele. Antes, participara apenas de alguns programas de rádio e de gravações, engrossando o coro de outros intérpretes. Lembro por exemplo que também participou da gravação de "Mamãe eu quero", sucesso de carnaval de Jararaca e Vicente Paiva.

Por conta do retumbante sucesso da música de Lupicínio, gravou em seguida outro samba que também virou clássico: "Ah Seu Oscar", da dupla Ataulfo Alves e Wilson Baptista. E em pouco tempo tornava outra bela obra da mesma dupla um dos grandes sucessos do rádio: "O Bonde de São Januário". Era o cantor perfeito para este tipo de samba, bem carioca, que pede um gingado, uma malandragem na interpretação.

Pedro Caetano fez um samba-choro maravilhoso que também pedia a voz do Formigão. Era "Botões de Laranjeira" que, curiosamente, foi censurada porque citava nominalmente uma criança. Maria Madalena de Assunção Pereira na letra,  virou "dos Anzóis Pereira", por sugestão do radialista César Ladeira e pode, assim,  ser gravada. Ouçam esta gravação do Cyro, acompanhado do Regional de Benedicto Lacerda.

 
Muitos são os sambas que ficaram conhecidos em gravações feitas por Cyro Monteiro. Conhecemos hoje vários chamados "clássicos" cuja primeira gravação foi feita por este suburbano carioca, mas criado em Niterói, que só entrou pra vida artística por conta de uma necessidade. Silvio Caldas, que não é meu parente, cantava em dupla com Luis Barbosa num programa de rádio de que o Cyro não perdia uma edição. Sabia todas as canções...quando num dia faltou o Luis Barbosa, o Sílvio passou na casa do Cyro e o levou pro rádio. Deu certo...

Os sucessos foram acontecendo. "Beija-me", um sambaço do Roberto Martins e Mário Rossi, foi um estrondo em 1943. Também foi ele um dos primeiros a gravar Nélson Cavaquinho, com o samba "Apresenta-me aquela mulher". Também do mestre Nélson Cavaquinho gravaria mais tarde "Rugas".  O que dizer dos sucessos de "Escurinho" e "Falsa Baiana", de Geraldo Pereira? Taí uma gravação que  conta também com Jorge Veiga. Ouça :

 
Não podemos esquecer que Cyro Monteiro também compunha. Dias da Cruz foi um dos parceiros mais constantes e co-autor de "Madame Fulano de Tal", que eu creio tenha sido o de maior sucesso. Lembro de ele ter cantado uma vez na TV, no programa "Noite de Gala", talvez ali pelos anos 60...Mas o LP que ficou mais na minha memória foi um dele cantando sambas de Vinícius e de Baden. Agora relendo os livros, vi que o disco é de 1965. Ficamos sabendo, através deste disco, da existência de maravilhas como "Formosa", "O Astronauta", "Amei Tanto" e outros belos sambas da dupla Baden e Vinícius.

Vinícius, aliás,  foi um  dos seus maiores admiradores. Se o apelido "Formigão" lhe foi dado pelo compositor Eratóstenes Frazão, não se sabe bem ao certo quem o chamou pela primeira vez de "O cantor das mil e uma fãs". Mas foi Vinícius quem disse que Cyro Monteiro era um abraço em toda a humanidade, tamanha a sua camaradagem, a sua amizade com todo mundo e extrema simpatia. Mas o que tinha de simpatia, lhe faltava na coragem para viagens de avião.

Certa vez, num voo da ponte aérea Rio-São Paulo, Borjalo, que trabalhava na Rede Globo de Televisão, ouviu um resmungar, uma reza para um tal de São Andreato, proferida por Cyro Monteiro: "Meu São Andreato, protegei o comandante e toda a tripulação desta aeronave". Indagado pela aeromoça sobre que santo era aquele, ele disse: " São Andreato nasceu em Lisboa em 1402. Não é muito divulgado e, portanto, me agarro a ele, pois sendo tão desocupado tem bastante tempo pra me atender. Eu sei que São Andreatto está doido para se promover fazendo um milagre. A chance é essa."

Grande cantor, grande sambista, flamenguista como eu, torço para que o nosso Formigão tenha neste ano, quando, em 28 de maio próximo, completaria seu centenário, as merecidas homenagens e lembranças. Tem um samba maravilhoso do Wilson das Neves e do Paulo César Pinheiro que presta uma honraria bem humorada  como ele era. Chama-se "Um samba pro Ciro Monteiro" e termino disponibilizando esta faixa pra você ouvir e curtir, na voz do próprio imperiano Wilson das Neves e do saudoso João Nogueira. Até a próxima!
 
 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

O Santo tem muitos devotos

Quando escrevi sobre Pixinguinha já imaginava que a audiência seria grande. Era esperado...mas o que rolou de e-mail e de sugestão sobre o santo foi tanto que vale a pena dar um pouco mais de continuidade ao assunto.

Um amigo me perguntou sobre  a letra de Rosa e algo mais sobre o compositor Otávio de Souza. A primeira grande gravação daquela valsa, já com letra,  foi feita por Orlando Silva, em 1937.

 

A Rosa, de 1917, sem letra, tinha 3 partes como a maioria das peças de chorinho feitas à época. Mas com a letra, acabou ficando com apenas duas partes, tendo versos diferentes para a primeira. Eis a letra que Otávio de Souza colocou:

Tu és, divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor
Se Deus me fora tão clemente
Aqui nesse ambiente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rósea cruz
Do arfante peito seu


Tu és a forma ideal
Estátua magistral oh alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendor da santa natureza


Perdão, se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh flor meu peito não resiste
Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar em esperar
Em conduzir-te um dia
Ao pé do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em preces comoventes de dor
E receber a unção da tua gratidão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer
Outro amigo me escreve registrando que eu deveria ter colocado o choro mais lindo deste mundo na postagem, que, na opinião dele e de muitos , é "Ingênuo". O choro é de parceria com Benedicto Lacerda que, pra quem não sabe, quitou as prestações da casa de Pixinguinha, numa espécie de adiantamento de direitos autorais, quando o mestre estava numa fase bem dura. Algumas publicações citam Ingênuo, como sendo a peça preferida do São Pixinguinha. Eis uma mostra com o genial Ronaldo do Bandolin no solo, Dino Sete Cordas, e o Conjunto Época de Ouro. 


Resisti ao máximo em fazer menção a Carinhoso na postagem do Santo, correndo o risco de receber indagações do porque não citar esta obra de Pixinguinha e letra de João de Barro. Como esta canção é sucesso também do outro lado do mundo, pesquisei uma interpretação em japonês e mostro pra vocês. A interpretação e de

高田泰久&布上智子 谷中ボッサ


 Até a próxima...

sexta-feira, 29 de março de 2013

São Pixinguinha

Não é fácil pra ninguém escrever sobre seus ídolos. Eu confesso um pouco de medo, oriundo do profundo respeito que tenho por este extraordinário brasileiro que, nascido Alfredo da Rocha Viana Filho, ficou  conhecido por todos como Pixinguinha. É uma ousadia escrever sobre ele, ainda mais quando se tem , Graças a Deus, muita coisa espalhada por aí. Mas este é o objetivo deste blogue, lembram? Vou tentar trazer para meus leitores alguma novidade, fatos que não são tão conhecidos.

Uma de suas obras mais complexas e de difícil execução chama-se "Gargalhada". A confusão já começa no gênero, enquanto uns consideram um fox-concerto, outros nomeiam como choro. O certo é que Pixinguinha compôs Gargalhada quando já tinha passado a tocar saxofone e registrou, para Altamiro Carrilho, que tinha escrito a obra em homenagem a ele, um dos poucos capazes de executá-la. Certa vez um amigo flautista me disse que, a partir de um ponto da música,  parece que duas flautas tocam ao mesmo tempo. Escutem um trecho desta interpretação do Conjunto Época de Ouro, tendo Antonio Rocha na flauta, captada numa apresentação ao vivo do grupo.




Uma das melhores histórias que envolvem  Pixinguinha dá conta de que certa vez, voltando pra casa, foi abordado por um ladrão que lhe pediu, além do dinheiro e o relógio, mais a caixinha que ele carregava. Pixinguinha entregou tudo, inclusive a caxinha que era onde estava sua flauta. O bandido pediu também fósforos para acender um cigarro e a chama iluminou o rosto do assaltado, sendo logo reconhecido pelo ladrão. Sem graça, o assaltante se desculpou do infortúnio: "Desculpe seu Pixinguinha, eu conheço o senhor aqui do bairro e suas serenatas, não perco uma..."e devolveu tudo. Como estavam perto da casa de Pixinguinha, este convidou o ladrão a entrar e sentaram pra tomar umas cervejinhas juntos até de manhã.

Uma de suas primeiras composições, gravada em 1917, foi Rosa, de inúmeras novas versões e nas mais variadas vozes. O nome original desta valsa era "Evocação", mas logo ganhou o nome de Rosa, quando Otávio de Souza, um mecânico que morava no Engenho de Dentro, natural em Nova Friburgo, compôs a letra.

 

Pixinguinha sempre gostou de tomar "umas e outras"  como diziam os cariocas de seu tempo. Nas décadas de 50 e 60, e já com uma certa idade, ainda era assíduo frequentador  do Bar Gouveia, ali na Travessa do Ouvidor, no Centro do Rio. Chegava, sentava sempre na mesma mesa e tomava aquelas geladas, antecedidas por uma "boa calibrina". Em março de 1963, ao entrar no Gouveia comoveu-se ao ser recebido por diversos músicos que executavam "Carinhoso". Era uma homenagem do Sr. Guilherme Gouveia, dono do Bar, que oferecia ao grande mestre uma cadeira cativa. Na placa os dizeres "Ao professor Pixinguinha, a Casa Gouveia oferece a sua cadeira cativa - 30.03.1953 a 30.03.1963". Entre os músicos presentes estavam, entre tantos,  Donga, João da Baiana, Luna e César Faria, com seu filho Paulo César, que depois passou a ser chamado de Paulinho da Viola.
Alfredo Neto, Pixinguinha, João da Baiana e Alfredinho do Flautim
 
Outro fato interessante ligado a Pixinguinha ocorreu quando dos festejos de seus 70 anos, em 1968. Quando tudo já estava marcado e preparado para uma grande homenagem, vai que o genial Jacob do Bandolin, que também era um dos melhores pesquisadores quando o assunto era música, descobre que Pixinguinha não nascera no dia 23 de abril de 1898, como todo mundo achava, inclusive o próprio. Jacob foi a a igreja de Santana, onde Pixinguinha havia sido batizado, e constatou que o certo era 23 de abril de 1897. Mas quando ele contou pro Pixinguinha ouviu do velho e genial compositor um pedido: "Vamos guardar segredo. Já pensou a decepção para o pessoal que está prestando todas estas homenagens a mim? Museu da Imagem e do Som, Governo do Estado, Assembléia Legislativa...vixe". E assim foi feito. Mas podemos afirmar que neste ano de 2013, Pixinguinha faria 116 anos.

Altamiro Carrilho e Carlos Poyares gravaram um dos discos de que mais gosto, só com peças de Pixinguinha, em 1975. O álbum e´ "Pixinguinha de novo", bom do princípio ao fim, mas quero dividir com meus leitores a faixa "Desencanto", um maravilhoso e emocionado choro, dos meus preferidos.







Num belo sábado de fevereiro de 1973, a Banda de Ipanema tinha um desfile marcado pelas ruas de Ipanema. E neste mesmo dia, 17,  Pixinguinha também tinha um compromisso em Ipanema: batizar o menino Rodrigo, filho de Euclides, um rapaz mineiro que muito foi ajudado por Pixinguinha, nos seus primeiros dias na Cidade Maravilhosa. Pixinguinha chegou cedo na Igreja de Nossa Senhora da Paz e, durante o batismo, passou mal e veio a falecer ali, dentro de um igreja, comprovando e confirmando o apelido dado por Hermínio Belo de Carvalho, um de seus parceiros:  São Pixinguinha.

O livro "Pixinguinha vida e obra', do jornalista e escritor Sérgio Cabral é uma referência em biografia do mestre Pixinguinha. Foi nele, entre outras fontes, que busquei saber sobre a vida do personagem desta postagem. Sugiro que leiam e se deliciem com esta grande vida e obra. 

Um abraço e até a próxima. 

quinta-feira, 21 de março de 2013

Uma luz sobre um grande instrumentista

Particularmente considero o período que vai do final dos anos 20 ao início dos 40, do século XX, como um dos melhores e mais exuberantes da nossa música. Por uma feliz e gloriosa coicidência, neste período aconteceram algumas coisas que contribuíram muito para a chamada "época de ouro" da música popular brasileira, em especial a chegada do rádio. 

O interesse era grande apesar das poucas unidades iniciais
Oficialmente, a primeira transmissão de rádio ocorreu no dia 7 de setembro de 1922, numa cerimônia que celebrava o centenário da independência no Rio de Janeiro, com o discurso do presidente Epitácio Pessoa e a execução da ópera "O Guarani", de Carlos Gomes. Nos anos seguintes, lideradas por Roquete Pinto, foram inauguradas diversas emissoras de rádio no Brasil. Na mesma época, desenvolveram-se também a gravação eletromagnética do som e o cinema falado. O leitor imagina o furor destas três forças, atuando concomitantemente e as suas consequências nos hábitos e cotumes, especialmente na capital da República.

Junte-se a tudo isso a necessidade de contratação de profissionais para atuar, tanto nas áreas técnicas como nas artísticas. E aí vem e acontece o melhor: aparecem talentos incontestáveis para produzir, executar e cantar as canções que surgiam aos borbotões. Surgem na década de 30 nomes como os de Ary Barroso, Noel Rosa, Lamartine Babo, Braguinha, Assis Valente, Ismael Silva entre outros tantos compositores. Cantores tais como Mário Reis, Silvio Caldas, Almirante, Carlos Galhardo, Carmen Miranda e outras. E instrumentistas que, somados a Pixinguinha que já estava na ativa há algum tempo, ajudaram a tornar esta, a epoca de ouro. São eles o flautista Benedito Lacerda, o bandolinista Luperce Miranda, o pinanista Radamés Gnattali e o saxofonista e clarinetista Luis Americano. E é sobre este último que busquei saber mais e descobri fatos bem legais.

Luís Americano era sergipano e chegou ao Rio de Janeiro em 1921 como soldado do éxercito, onde integrava a Banda Marcial. Mas logo ao dar baixa, viu oportunidade de se juntar a outros instrumentistas e unir a necessidade de sobrevivência com o gosto pela música. Assim, participou de diversas orquestras e de gravações de algumas canções desta fase de ouro do rádio. Na célebre gravação da marchinha "Mamãe eu quero", de Jararaca e Vicente Paiva, de 1937, ele eternizou a "risada" de seu clarinete logo na introdução da mesma. Escutem, a seguir,  a gravação original da marchinha que estou no carnaval, com participação de Almirante e o próprio Jararaca nas falas iniciais, bem como o clarinete de Luis Americano.
 

Numa outra gravação histórica fez toda a introdução da primeira canção de sucesso do jovem e promissor cantor Nélson Gonçalves, em 1942, quando "deitou e rolou" no sax-alto, num fox-trote típico da época, , chamado "Renúncia", que depois viraria um samba para fazer sucesso também no carnaval. Ouça o trabalho de Luiz Americano nesta gravação original 



É bom registrar também que, em 1940, ele fez parte daquele grupo de instrumentistas selecionados por Pixinguinha, a pedido do maestro Villa-Lobos, para participar das gravações para Stokowski, famoso regente americano que visitava o Brasil. Eis a gravação de "Tocando pra você", realizada no navio Uruguai, para o álbum Native Brazilian Music, com o Luiz Americano, acompanhado pelo maravilhoso pandeiro de João da Baiana, contribuição de meu amigo e ilustre leitor, Barão do Pandeiro.


Além de exímio instrumentista, Luís Americano foi um compositor frequente do choro e da valsa, tendo inúmeras gravações de suas canções registradas, tais como "È o que há", "Saxofone porque choras" , "Luís Americano na PRE 3", "Tocando pra você", "Sossega Juca", "Intrigas no buteco do Padilha", e tantas outras...escutemos algumas.



 
                                       
                                           
                                                  
A gravadora Revivendo lançou, em 2010, 3 cds de sua obra, intitulada  "Luíz Americano - 50 anos de saudade" que podem ser encomendados  no sítio do selo

Recomendo também, para quem quiser saber mais sobre a era de ouro da nossa música e mais, muito mais, o livro "A Canção no Tempo" de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. Vai lá e lê.

terça-feira, 12 de março de 2013

A construção de uma música realmente brasileira passou por Chiquinha Gonzaga

Não tenho lembrança alguma de ter ouvido falar em Chiquinha Gonzaga na minha infância e adolescência. É curioso este fato porque outros expoentes do choro transitavam por meus ouvidos livremente e meu interesse pelo gênero sempre existiu. Os nomes que me eram familiares eram os de Pixinguinha,  Ernesto Nazareth, Jacob do Bandolim e Waldir Azevedo. Até conhecia a marchinha "Oh abre alas...", mas não sabia quem era o autor ou autora. Hoje, sabendo que Chiquinha Gonzaga produziu, pelo menos,  mais de 1 mil peças musicais, sinto-me motivado a agradecer a sua principal biógrafa, Edinha Diniz, cuja obra, publicada em 1984, gerou uma série de fatos e motivou que diversas pessoas produzissem trabalhos falando de Chiquinha Gonzaga. 

Um destes trabalhos e que certamente tornou a nossa personagem mais popular foi produzido pela TV Globo, em 1999. A mini-série "Chiquinha Gonzaga", escrita por Lauro César Muniz e dirigida por Jayme Monjardim fez o maior sucesso e até gerou outro produto: a caixa de DVD, em seis volumes, lançada em 2008. Claro que a mini-série, bem ao jeito da tv brasileira, se preocupou muito mais com a vida diferenciada e de muitas dificuldades da mulher Chiquinha Gonzaga do que com sua vasta e histórica obra. Mas devemos, mesmo assim, louvar a iniciativa da emissora, porquanto tornou nossa maestrina popular.



Depois de publicada a obra de Edinha Diniz, já foram gravados diversos Cds, como os dos pianista Clara Sverner e Antônio Adolfo, totalmente dedicados às peças musicais de Chiquinha Gonzaga. Igualmente foram apresentadas peças de teatro, como "Forrobodó", de Luiz Peixoto e Carlos Bitencourt, musicada por Chiquinha , cuja primeira montagem se deu em 1912, levada ao público carioca em 1995, no Centro Cultural Banco do Brasil, e depois  às grandes praças do País, sempre com presenças expressivas de público.



Na minha opinião a contribuição de Chiquinha Gonzaga para formação de uma música caracteristicamente brasileira foi fundamental. Ela pegou exatamente a fase de transição do século XIX pra o XX,  quando  as transformações ocorridas na cidade do Rio de Janeiro, citadas em outra postagem, permitiram que nossa música fosse forjada. O carioca saía muito às ruas. Ouviam-se muitas polcas, valsas, lundus e outras canções de origem européia, nas confeitarias da Rua do Ouvidor. Lugar onde a nossa Chiquinha tocou muito. Estas peças musicais aqui foram bem mescladas com o batuque e a malemolência dos negros, gerando o choro, o samba  e as marchinhas carnavalescas. A maestrina, professora e instrumentista soube bem captar este clima e produzir, como Patápio, Calado e Nazareth, as nossas primeiras melodias bem brasileiras, abrindo caminho para o que veio depois. A primeira marchinha carnavalesca é dela também. "Ô abre alas" que ela  compôs em 1899, teve mais tarde, uma gravação bem interessante e que ficou para história do nosso Carnaval. 



Percebemos este "abrasileiramento" em muitas músicas de Chiquinha e cada um de nós terá as suas preferências nos exemplos, sem contudo deixar de apreciar todas. A primeira  foi "Atraente", em 1877 que teve, numa época sem mídia, 15 edições de sua partitura. É mole uma estreia assim? Depois vieram "Lua Branca", um clássico das serestas; Corta-Jaca (Gaúcho), Bione...epa...esta eu quero que vcs. ouçam e reparem como já tem clima bem carioca e brasileiro o tema.



A extraordinária brasileira ainda arranjou tempo para participar de diversos movimentos de sua época, envolvendo-se, de corpo e alma, com a luta pela Abolição da Escravatura, a Proclamação da nossa República e a defesa do direito autoral, sendo fundadora da SBAT, Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. É pouco o seu legado?

Quem quiser se aprofundar e conhecer mais sobre Chiquinha Gonzaga, tem um bom material a pesquisar. Eu recomendo o livro da Edinha Diniz, "Chiquinha Gonzaga, uma história de vida" e uma visita ao sítio oficial www.chiquinhagonzaga.com , organizado por Wandrei Braga. Vai lá que você vai gostar. Um abraço e até a próxima.

segunda-feira, 4 de março de 2013

A Pedra do Sal ontem e hoje

Quando escrevi sobre o Rio de antes do samba, uma jovem amiga carioca, mandou-me uma mensagem referindo-se a uma roda de samba que acontece na Pedra do Sal, perto da Praça Mauá, no centro da Cidade Maravilhosa. Confesso que desta roda nunca participei, mas lembro do Morro da Conceição e da subida da Pedra do Sal, desde os tempos em que minha mãe me levava no Hospital dos Servidores, ali no bairro da Saúde. O lugar é cheio de história e vale a pena a gente registrar aqui.

Já li em vários livros que o bairro da Saúde e adjacências eram o local do Rio onde, nos séculos XVII e XVIII desembarcavam os escravos vindos da África para serem comercializados. Alguns não suportavam as condições precárias da longa viagem e já chegavam mortos ao destino. E muitos outros chegavam doentes, fracos e sem condições de serem vendidos naquele estado de saúde. Neste caso eram levados para as chamadas "casas de engorda" para serem alimentados e recuperados. O mar avançava até a região onde hoje está a Pedra do Sal, início da subida do Morro da Conceição.  Nesta região localizava-se toda a estrutura que preparava os negros para a venda no Cais do Valongo.


A tal pedra já chamou-se "quebra-bunda", mas depois ganhou o nome de Pedra do Sal, devido ao grande volume de sacas de sal levadas pelos negros morro acima. Dizem que a escadaria que até hoje se vê no local foi esculpida pelos próprios escravos, sem a utilização de ferramentas adequadas, para facilitar a subida.

Já na virada do século XIX para o XX, depois portanto da Abolição da Escravatura, começaram a chegar na região, negros vindos da Bahia, dando origem a uma comunidade que praticava, sem grandes problemas, seus hábitos religiosos, suas rodas de capoeira e batucadas. É muito comum a gente encontrar referências a "Pequena África", região compreendida entre a Praça Mauá e o Catumbi, no Rio, passando pela Praça XI,  onde residiam muitos negros vindos principalmente da Bahia.

Esta vocação da região da Pedra do Sal continuou por ocasião do êxodo de trabalhadores, ex-escravos, das fazendas de café do estado do Rio e do Interior de São Paulo, por conta da decadência do comércio de café. Os negros então buscaram abrigo na capital federal, em especial, onde sabiam que já residiam outros semelhantes baianos.

Muitos consideram esta região portuária do Rio de Janeiro, como a de origem do samba e do choro, porquanto moraram ou frequentavam a região, ícones como  João da Baiana, Donga, Sinhô, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, entre outros. Também da região era Hilário Jovino, criador de um dos primeiros Ranchos Carnavalesco do Rio, o Dois de Ouro. De lá também saíram as famosas baianas Bibiana, Marcelina e Ciata que promoviam em suas casas, batuques que mais tarde deram origem ao samba carioca que conhecemos. 

Não tendo dúvida da importância da área para a comunidade negra do Rio e para a cultura brasileira, o Governo do Estado Rio de Janeiro decretou o tombamento da Pedra do Sal, como patrimônio  cultural, em 20 de janeiro de 1984, devolvendo para o lugar um merecido movimento de sambistas que realizam as tais rodas de sambas, lembradas por minha amiga Ligia Tralhão.


Eu pesquisei muitos videos, livros e sítios na internet para produzir este texto. Mas recomendo, para quem quiser saber mais sobre  a Pedra do Sal a leitura de "Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro" do Roberto Moura. É um referência sobre as origens do samba urbano carioca. Vai lá e lê.

Fique à vontade para tecer algum comentário. Um abraço, grato pela visita e até a próxima.